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A casa que você escolhe também revela quem você finalmente decidiu ser. Tem apenas duas semanas que nos mudamos, após dez anos morando na mesma casa. Fizemos um grande downsizing: saímos de um espaço com cinco quartos, uma cozinha gigante e sala idem para uma casa com três quartos pequenos, cozinha e sala que não chegam a um terço da anterior. Em compensação, temos agora um quintal tão grande quanto a alegria imensurável do Herkey, que corre todos os dias atrás de esquilos e coelhos, habitués do local. E sim, dessa vez o quintal tem cerca.


A casa que você escolhe revela quem você se tornou

Conversei com inúmeras pessoas sobre o ato de mudar, e 99% concordam: mudar não é para os fracos. É problema atrás de problema — seja casa de aluguel ou comprada, com obra ou sem obra. São caixas que não acabam mais, assuntos para resolver que parecem infinitos. A sensação é de entrar em um looping de projetos a fazer. É uma pinturinha ali, um quadro que se quer colocar, um papel de parede que você resolve adicionar. Fora a decoração. Aquilo que talvez fizesse sentido em um lugar, na casa nova já não faz mais. Troca-se, joga-se fora, muda-se a ordem. E a gente vai vivendo nesse caos organizado, numa sanha de resolver um pouco a cada dia.


Mas algo ainda mais interessante me ocorreu. Diferente da primeira casa e do contexto em que eu estava — recém-imigrada, recém-casada, tentando me entender em uma vida que incluía mais quatro crianças praticamente 100% do tempo em casa, que não eram minhas nem faziam parte da minha convivência anterior, além de um espaço onde eu morava e trabalhava remotamente ao mesmo tempo. Acabei deixando de lado, por muito tempo, a decoração e as minhas próprias necessidades de fazer daquela casa a minha cara, o meu jeito.


Foram anos até eu adicionar um elemento que transmitisse a minha personalidade. Fui, aos poucos, criando uma atmosfera mais minha — com mais cor, mais objetos de valor sentimental, trazendo um pouquinho de mim, da minha cultura e da minha criatividade. De fato, a casa não me transmitia. A maioria dos itens existia por praticidade, para criar um senso de lar, mas não como uma extensão de mim.


Foi somente dez anos depois que me atrevi a adicionar cores e objetos que gritavam o meu nome. Isso aconteceu há um ano, e foi uma avalanche de mudanças que começaram a ocorrer internamente também — e o externo foi refletindo. Não dava mais para estar em um local onde eu não pudesse me expressar. Simplesmente não dava.


O próprio processo de procurar uma casa passou por esse meu “filtro Rita”. Eu queria encontrar um lugar que tivesse pelo menos a base do que considero importante para mim, para a minha estrutura de vida. Foi isso que aconteceu com o novo espaço, que, mesmo muito menor, reflete o meu interno neste momento de grandes mudanças.


Quase 50 anos. Mudança de trabalho. Mudança de corpo. Mudança de mentalidade… Tanta mudança que, mesmo com todo o estresse gerado por trocar de casa, eu não me canso de olhar cada cantinho que ainda estou arrumando, decorando e admirando dia após dia.

 
 
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